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REVEST HOMEREVISTA DIGITAL · EDIÇÃO 02

HOTÉIS · RESTAURO · RETROFIT · PRESERVAÇÃO

Hotéis em edifícios históricos: quando restauro e retrofit transformam a hospedagem

Cinco endereços brasileiros onde arquitetura e memória se encontram — entre preservação, restauro, retrofit e adaptação de uso, um mesmo edifício pode atravessar séculos sem deixar de acolher quem chega

Revista Revest Home — Editoria de Hotéis
Visualização editorial ilustrativa de um pavilhão histórico ao lado de uma torre contemporânea coberta por vegetação.
Visualização editorial ilustrativa — não representa diretamente os hotéis citados.
STATUSPublicada
CADERNOHotéis
CURADORIARevest Home
IMAGENSIlustrações editoriais

Sexta-feira à tarde tem um jeito específico de pesar. As últimas mensagens do dia chegam mais espaçadas, o expediente afrouxa, e junto com o cansaço vem uma vontade concreta de sair do lugar — não necessariamente para longe, mas para um lugar com outra densidade de tempo. Há hotéis que respondem a esse desejo com paisagem e silêncio. Há outros, menos óbvios, que respondem com memória: edifícios que carregam décadas — às vezes séculos — de história antes de receber o hóspede de hoje. Dormir ali é uma forma específica de turismo arquitetônico, e é sobre esses lugares que trata o especial desta semana.

Vale uma distinção editorial antes de começar: nem todo hotel instalado em um edifício antigo passou pelo mesmo tipo de intervenção. Preservação é o conjunto de ações destinadas a proteger os valores históricos, culturais e arquitetônicos de um bem — o que não significa, necessariamente, manter seu uso original. Restauro busca conservar ou recuperar características relevantes do edifício, com critérios históricos e técnicos. Retrofit atualiza sistemas, desempenho e infraestrutura de uma construção existente, sem apagar sua identidade. E adaptação de uso é o que atribui a um edifício uma função diferente daquela para a qual foi originalmente concebido. Já tratamos aqui, na Revest Home, de como ferramentas como o BIM (Building Information Modeling) têm tornado esse tipo de intervenção mais preciso e menos arriscado — vale a leitura complementar em BIM aplicado ao retrofit para quem quer entender a engenharia por trás da poesia.

Os cinco hotéis reunidos a seguir passaram por processos diferentes entre si — cada um identificado com precisão em sua própria seção —, mas compartilham uma mesma decisão de projeto: negociar com o que já estava construído, em vez de apagá-lo. Verificados em fontes oficiais, patrimoniais e especializadas em 4 de setembro de 2026, nenhum deles repete a lista de hotéis já publicada por esta revista em Hotéis integrados à natureza: 4 projetos de arquitetura — aqui, o protagonista não é a paisagem natural, mas o tempo construído.

Rosewood São Paulo: adaptação de uso de um conjunto hospitalar centenário

Restauro dos pavilhões históricos e a nova Torre Mata Atlântica, de Jean Nouvel

O Rosewood São Paulo ocupa o terreno do antigo Hospital e Maternidade Umberto I, erguido em 1904 pela Società Italiana di Beneficenza no bairro da Bela Vista — uma antiga maternidade onde, segundo o próprio hotel, mais de meio milhão de brasileiros nasceram. O empreendimento, batizado Cidade Matarazzo, é um caso de adaptação de uso: o conjunto hospitalar histórico ganhou uma nova função hoteleira, ao lado de uma torre inteiramente nova. Segundo publicações técnicas especializadas em restauro, o projeto de restauração dos pavilhões históricos tem autoria compartilhada entre os professores da FAUUSP Júlio Roberto Katinsky e Helena Ayoub e o arquiteto Roberto Toffoli — uma equipe dedicada especificamente à preservação da arquitetura original. Já a nova torre contemporânea erguida ao lado do conjunto neoclássico, batizada Torre Mata Atlântica, é assinada pelo arquiteto francês Jean Nouvel, vencedor do Prêmio Pritzker em 2008; os interiores do hotel são de Philippe Starck.

Interiores de Philippe Starck e o acervo de arte brasileira

O resultado reúne hoje uma coleção permanente de mais de 450 obras de arte de artistas e artesãos brasileiros, distribuídas pelos espaços comuns, e um enclave arborizado de três hectares na cidade — segundo o próprio hotel, "repleto de vegetação exuberante". Um dos volumes do complexo ganhou uma fachada verde viva, e reportagens especializadas em arquitetura registraram o plantio de mais de 250 árvores de até 14 metros de altura em uma das torres do conjunto. O hotel abriu ao público em janeiro de 2022. Para quem se interessa por adaptação de uso em escala metropolitana, é hoje uma referência de como um hospital centenário pode se tornar hotel sem deixar de ser, também, um marco de preservação.

Visualização editorial ilustrativa de um casarão histórico adaptado para hospedagem em uma encosta tropical.
Visualização editorial ilustrativa — não representa diretamente os hotéis citados.

Hotel Santa Teresa, Rio de Janeiro: adaptação de uma fazenda histórica para hospedagem

Mobiliário de Sergio Rodrigues e Rock Lane em um casarão de 1850

No alto do bairro de Santa Teresa, o Hotel Santa Teresa MGallery ocupa um casarão que remonta a 1850, construído no auge do ciclo econômico do café e do cacau no Brasil. A propriedade funcionou como fazenda antes de a cidade crescer ao seu redor, e o processo aqui foi de adaptação de uso: uma construção rural histórica recebeu função hoteleira, mantendo essa ambientação de refúgio dentro do tecido urbano. Hoje o hotel reúne 43 acomodações, com mobiliário que mistura peças de Sergio Rodrigues e do estúdio Rock Lane, em madeiras tropicais e fibra de bananeira que dialogam com a estrutura original do casarão.

A Chave Michelin de 2025

O reconhecimento internacional chegou em 2025, quando o Santa Teresa recebeu uma Chave Michelin — distinção que colocou a propriedade entre os hotéis do Rio de Janeiro premiados naquele ano pelo guia. Mais do que uma vista postal do Cristo Redentor e da Baía de Guanabara, o hotel propõe uma experiência de um Rio anterior à verticalização: ruas de paralelepípedo, bondes históricos e uma arquitetura de fazenda que raramente sobrevive tão perto do centro de uma capital.

Visualização editorial ilustrativa de uma fachada de hotel art déco restaurada em uma rua histórica.
Visualização editorial ilustrativa — não representa diretamente os hotéis citados.

Fera Palace Hotel, Salvador: restauração e retomada do uso hoteleiro original

De hotel art déco (1934) à decadência comercial

Na Rua Chile, no Centro Histórico de Salvador, o prédio que hoje abriga o Fera Palace Hotel foi inaugurado em 1934, em um edifício art déco inspirado no Flatiron Building de Nova York — uma ousadia arquitetônica em uma cidade dominada, até então, por linguagens coloniais e neoclássicas. O edifício preserva detalhes arquitetônicos dos anos 1930, como arcos, pé-direito alto e pisos de madeira de lei originais, segundo material institucional do próprio hotel.

A restauração conduzida pelo Grupo Fera

Diferentemente do Rosewood ou do Santa Teresa, este não é um caso de mudança de uso: o edifício nasceu hotel e, depois de décadas de declínio comercial na região, voltou a ser hotel. O empresário Antonio Mazzafera, fundador do Grupo Fera, conduziu o que o próprio hotel descreve como um processo de restauração meticulosa, que devolveu o edifício à cidade e o preparou para uma nova era — sem tentar simular a década de 1930, mas preservando-a. Segundo levantamento histórico publicado pelo site especializado Universo Retro, a aquisição do imóvel ocorreu em 2012, as obras de restauro tiveram início em 2015 e o hotel reabriu em 2017; essas datas específicas não constam do material institucional do hotel consultado nesta checagem, e são atribuídas aqui diretamente a essa fonte especializada. É um retorno, décadas depois, ao mesmo papel que a construção exerceu em sua origem: ser a porta de entrada mais elegante da cidade.

Visualização editorial ilustrativa de um edifício modernista em contraste com telhados coloniais.
Visualização editorial ilustrativa — não representa diretamente os hotéis citados.

Grande Hotel de Ouro Preto: a preservação de um hotel modernista

Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e a encomenda de 1938

Em 1938, os governos de Getúlio Vargas e de Minas Gerais se uniram para levar hospedagem à altura do turismo que a cidade histórica de Ouro Preto passaria a atrair. Uma comissão chefiada pelo urbanista Lúcio Costa encarregou o projeto a um jovem arquiteto ainda no início de carreira: Oscar Niemeyer. Diferentemente dos demais hotéis desta seleção, o Grande Hotel não é um caso de retrofit ou de mudança de uso — foi projetado, desde a origem, para ser hotel, e o que se preserva hoje é justamente esse projeto modernista original dentro de uma cidade inteiramente tombada.

Paisagismo de Roberto Burle Marx dentro de uma cidade tombada

Niemeyer desenhou o edifício deliberadamente para contrastar com o entorno colonial, e não para imitá-lo: linhas retas, grandes vãos elevados sobre pilotis e fachadas de vidro que se abrem para a paisagem histórica ao redor. O paisagismo, em um terreno de 7 mil metros quadrados, ficou a cargo de Roberto Burle Marx. Oitenta anos depois, o Grande Hotel segue em funcionamento no coração do centro histórico, com piscina vinculada ao projeto original de Niemeyer e um terraço panorâmico sobre os telhados tombados da cidade — um raro exemplo de arquitetura modernista preservada dentro de um sítio protegido como monumento nacional desde 1933.

Visualização editorial ilustrativa de casarões coloniais restaurados com pátio e piscina.
Visualização editorial ilustrativa — não representa diretamente os hotéis citados.

Villa Bahia, Salvador: restauração e adaptação de dois casarões coloniais

Dois casarões dos séculos XVII e XVIII no Centro Histórico de Salvador

De volta a Salvador, mas em outro registro, o Hotel Villa Bahia ocupa dois casarões dos séculos XVII e XVIII no Centro Histórico de Salvador, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial. Aqui, o processo combina restauração e adaptação de uso: os imóveis coloniais foram restaurados e adaptados para receber hóspedes, "no estilo das pousadas tradicionais", preservando a arquitetura original das construções enquanto se incorporava o conforto esperado por um hóspede contemporâneo — ar-condicionado, piscina, wi-fi, mas paredes grossas, pé-direito alto e vãos de janela que só um casarão colonial genuíno pode oferecer.

Hospedagem em um sítio Patrimônio Mundial da UNESCO

Hoje o Villa Bahia funciona com 17 quartos e suítes, terraço panorâmico e bar, no coração do Pelourinho — um dos bairros mais fotografados do Brasil e um dos mais escrutinados por especialistas em preservação patrimonial. É um exemplo de restauro em escala doméstica — não um marco isolado, mas parte de um tecido urbano inteiro que se sustenta, casarão a casarão, hospedagem a hospedagem.

O que restauro, retrofit e preservação ensinam sobre viajar

Os cinco hotéis reunidos aqui passaram por processos de projeto bem diferentes entre si — adaptação de uso, restauração, ou simplesmente a preservação de um projeto que já nasceu hoteleiro —, mas compartilham a mesma lógica de fundo: em vez de apagar o que já existia para erguer algo novo, cada um negociou com a construção que tinha diante de si. Intervenções em edifícios existentes podem exigir levantamentos, diagnósticos e soluções técnicas especializadas — um processo que, quando bem executado, produz hospedagens que nenhuma construção nova consegue replicar. Não se trata de nostalgia decorativa, mas de reconhecer que todo edifício já carrega, antes mesmo do primeiro hóspede, uma memória arquitetônica que vale a pena habitar.

Vale reforçar: preços, disponibilidade, serviços e até detalhes de acesso podem mudar sem aviso prévio, e cabe a cada leitor confirmar diretamente com cada hospedagem antes de reservar. Esta seleção é editorial, não promocional — nenhum dos hotéis aqui mencionados pagou ou foi consultado para aparecer nesta matéria.

Continue acompanhando a editoria de Hotéis da Revista Revest Home toda sexta-feira, com novas seleções de arquitetura, design e experiência.

TRANSPARÊNCIA EDITORIAL

Fontes consultadas (checagem em 04/09/2026)

  1. Rosewood São Paulo — página oficial "Nossa História": https://www.rosewoodhotels.com/pt/sao-paulo/overview/our-story
  2. Rosewood São Paulo — página oficial "Rosewood Art Collection" (acervo de arte e área verde): https://www.rosewoodhotels.com/pt/sao-paulo/overview/rosewood-art-collection
  3. Revista Restauro — "Obras e reuso do antigo Hospital Matarazzo" (autoria do projeto de restauro dos pavilhões históricos): https://revistarestauro.com.br/obras-e-reuso-do-antigo-hospital-matarazzo/
  4. ANPUH — "Hospital Matarazzo: tombamento e ressignificações" (publicação acadêmica sobre o tombamento do conjunto): https://www.historiaeparcerias.rj.anpuh.org/resources/anais/19/hep2021/1635340325_ARQUIVO_5620c8f21953456d7a0d0fd8071b8ea2.pdf
  5. Philippe Starck — página oficial do projeto Cidade Matarazzo/Rosewood São Paulo (autoria dos interiores): https://www.starck.com/cidade-matarazzo-rosewood-sao-paulo-p2494
  6. Arch Trends — reportagem especializada em arquitetura sobre o plantio de árvores no Rosewood São Paulo: https://blog.archtrends.com/rosewood-sao-paulo/
  7. Hotel Santa Teresa Rio MGallery — site oficial: https://www.santateresahotelrio.com/
  8. MGallery/Accor — história oficial do Hotel Santa Teresa: https://mgallery.accor.com/en/hotels/A1X5/story.html
  9. Guia Michelin — ficha específica do Hotel Santa Teresa Rio (Chave Michelin, 2025): https://guide.michelin.com/us/en/hotels-stays/rio-de-janeiro/hotel-santa-teresa-rio-3131
  10. Fera Hotéis — página oficial de história do edifício: https://ferahoteis.com/en/
  11. Universo Retro — levantamento histórico especializado sobre o prédio do Fera Palace Hotel (datas de aquisição, restauro e reabertura): https://universoretro.com.br/fera-palace-hotel-uma-viagem-no-tempo-para-a-salvador-dos-anos-30/
  12. Guia Michelin — ficha específica do Fera Palace Hotel: https://guide.michelin.com/pt/pt_PT/hotels-stays/salvador/fera-palace-hotel-12124
  13. Grande Hotel Ouro Preto — site oficial, seção "História": https://www.grandehotelouropreto.com.br/historia
  14. Grande Hotel Ouro Preto — site oficial, seção "Oscar Niemeyer": https://www.grandehotelouropreto.com.br/oscar-niemeyer
  15. Instituto/Site oficial Oscar Niemeyer — ficha da obra Grande Hotel de Ouro Preto: https://www.oscarniemeyer.org.br/obra/pro009
  16. Revista Hotéis — "Grande Hotel de Ouro Preto: 80 Anos de patrimônio e sofisticação": https://revistahoteis.com.br/grande-hotel-de-ouro-preto-80-anos-de-patrimonio-e-sofisticacao/
  17. Villa Bahia — site oficial: https://lavillabahia.com/en/
  18. Prefeitura de Salvador — Pelourinho Dia e Noite (contexto do bairro reconhecido pela UNESCO): https://pelourinhodiaenoite.salvador.ba.gov.br/