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HOTÉIS · REVISTA · EDIÇÃO 01

Quando arquitetura e natureza viram parte da hospedagem

Fasano Trancoso, UXUA, Tierra Patagonia e Amangiri mostram como arquitetura, materiais e paisagem transformam a experiência de hospedagem.

POR REDAÇÃO REVEST HOME
Arquitetura conceitual integrada à vegetação, ao lago e às montanhas no pôr do sol
Visualização editorial ilustrativa — não representa os hotéis citados.
EDIÇÃO01 · 2026
CADERNOHotéis
CURADORIARevest Home
LEITURA9 minutos

Há hotéis em que a paisagem aparece pela janela. Em outros, ela participa da maneira como se chega, se caminha, se percebe a luz e se escolhe onde ficar. A diferença não está apenas na vista: está na relação entre edifício, terreno e vida cotidiana.

Fasano Trancoso, UXUA Casa Hotel & Spa, Tierra Patagonia e Amangiri oferecem quatro leituras dessa relação. Não formam um ranking de destinos. Interessa observar como implantação, interiores e materiais transformam o ato de habitar, ainda que por poucos dias.

Arquitetura que se camufla na paisagem

Camuflar não precisa significar desaparecer. Pode ser reduzir a presença do volume, acompanhar uma linha do terreno ou deixar que a vegetação determine a distância entre os espaços.

Fasano Trancoso: a vegetação como parte da implantação

No Fasano Trancoso, na Praia de Itapororoca, Bahia, o projeto de Isay Weinfeld organiza os bangalôs na porção central do terreno e distribui outros usos pelas bordas. O paisagismo, com bromélias, helicônias e coqueiros, participa da privacidade entre as unidades. Argamassa, tijolo cru, madeira e sapé integram a paleta descrita pelo escritório. Fonte: Isay Weinfeld.

A leitura editorial está nessa combinação: a vegetação não funciona apenas como moldura de uma fachada. Ela ajuda a construir separações, aproximações e intervalos. Em vez de depender exclusivamente de paredes para definir intimidade, o conjunto também trabalha com a espessura do jardim.

Tierra Patagonia: uma linha construída diante do horizonte

À margem do lago Sarmiento, no Chile, o Tierra Patagonia foi projetado por Cazú Zegers, com Rodrigo Ferrer e Roberto Benavente. O relato dos arquitetos associa a forma alongada e sinuosa à ação do vento. O revestimento de madeira de lenga, tratado para adquirir tonalidade prateada, contribui para a relação visual com a paisagem. Fonte: memorial dos arquitetos no ArchDaily.

O interesse não está em reproduzir uma montanha em escala menor, mas em estabelecer uma presença horizontal diante dela. Para quem ocupa o interior, o edifício pode ser lido como abrigo e ponto de observação: a paisagem permanece extensa; o lugar de permanecer ganha uma escala mais próxima do corpo.

Interior conceitual enquadrando lago e montanhas por uma ampla abertura
Visualização editorial ilustrativa — não representa os hotéis citados.

Materiais locais, patrimônio e comunidade

UXUA: continuar uma história, em vez de simular uma

No UXUA Casa Hotel & Spa, em Trancoso, parte das casas históricas foi restaurada pelo designer Wilbert Das em colaboração com artesãos locais. O hotel descreve o uso de técnicas tradicionais e materiais recuperados. Seu ateliê também reúne trabalhos com madeira, cerâmica e fibras vegetais, entre outros materiais. Fontes: UXUA e UXUA Atelier.

Essa abordagem desloca a discussão do “estilo rústico” para a continuidade material. Uma superfície marcada pelo uso não precisa ser tratada como defeito; um objeto feito à mão pode estabelecer uma relação com o lugar que não se obtém apenas escolhendo uma cor ou um revestimento.

A participação de artesãos é documentada. Já o impacto econômico dessa colaboração não foi medido nesta apuração e não deve ser presumido. O ponto arquitetônico é mais específico: restauração, mobiliário e trabalho artesanal podem participar da mesma narrativa espacial, sem transformar a memória em cenário.

É uma conexão com a discussão de quando o passado encontra a arquitetura contemporânea: preservar não implica recusar novas formas de uso.

Minimalismo geológico

Amangiri: matéria, sombra e escala

Em Canyon Point, Utah, o Amangiri é resultado da colaboração entre Marwan Al-Sayed, Wendell Burnette e Rick Joy. A autoria é conjunta, não de um único escritório. O projeto estabelece sua relação com as formações rochosas do deserto por meio da composição dos volumes e dos espaços entre eles. Fonte: Wendell Burnette Architects.

Nas suítes, a descrição oficial identifica pisos de pedra clara, paredes de concreto, madeira natural e elementos de aço escurecido. Fonte: Aman — suítes do Amangiri.

“Minimalismo geológico” é a leitura editorial proposta aqui, não uma classificação oficial do hotel. O termo descreve uma arquitetura em que a redução de elementos faz aparecer textura, massa e sombra. A aparente simplicidade não elimina a composição: torna mais perceptíveis as relações entre uma parede, uma abertura e a profundidade do horizonte.

Espaço arquitetônico conceitual com pedra, água, árvore e luz lateral
Visualização editorial ilustrativa — não representa os hotéis citados.

Os elementos que constroem a experiência espacial

Paisagismo: espaço, não acabamento

O jardim pode filtrar vistas, orientar percursos e criar lugares de pausa. A partir do Fasano, a questão se torna concreta: o que muda quando a vegetação entra no raciocínio de implantação, em vez de ser adicionada ao final?

Essa integração visual, porém, não comprova por si só baixo impacto ambiental. Desempenho hídrico, energético e ecológico exigiria uma avaliação que esta matéria não realiza.

Piscinas e spas: a posição importa tanto quanto a forma

No Tierra Patagonia, a piscina do Uma Spa está diante de grandes superfícies envidraçadas voltadas à paisagem. No Amangiri, a piscina principal se organiza junto a uma formação rochosa. São relações espaciais distintas: em uma, o vidro faz a mediação; na outra, a proximidade da rocha participa da composição. Fontes: Tierra Patagonia — lodge e spa e Aman — Amangiri.

O aprendizado não é que toda hospedagem precise de uma piscina emblemática. É que um mesmo programa pode produzir experiências muito diferentes conforme sua posição, seus limites e a maneira como encontra o exterior.

Iluminação: escolher o que permanece em penumbra

O Amangiri informa adotar iluminação baixa e direcionada para baixo, com restrição de emissões azuis, em sua estratégia para a noite. Trata-se de uma descrição do operador, não de uma certificação independente verificada nesta pesquisa. Fonte: Aman — práticas do Amangiri.

Para a leitura de interiores, a questão é pertinente: iluminar não significa tornar tudo igualmente visível. Luz de circulação, luz de leitura e luz de destaque cumprem papéis diferentes. O excesso pode apagar profundidade e textura justamente onde o projeto pretendia evidenciá-las.

Materiais: coerência também depende do tempo

Madeira, pedra, fibras e concreto não oferecem a mesma resposta ao clima, ao toque ou à manutenção. A escolha editorialmente interessante não é uma lista de materiais “certos”, mas a coerência entre uso, exposição e envelhecimento esperado.

Uma superfície convincente em fotografia precisa continuar fazendo sentido depois da chuva, do sol e da rotina de limpeza. A especificação deve considerar essas condições, e não apenas uma referência visual.

Essa atenção aos encontros e às texturas também orienta a leitura de Materiais que definem uma nova geração de interiores.

Composição editorial conceitual com pedra, madeira, fibras, tecido e metal
Visualização editorial ilustrativa — não representa os hotéis citados.

O que esses hotéis ensinam para projetos residenciais

Não é necessário copiar a escala de um hotel para aprender com sua arquitetura. A tradução mais produtiva está nos critérios de decisão.

Começar pela implantação. Antes de escolher acabamentos, observar orientação, vistas, vizinhança e possibilidades de sombra. Um ambiente bem posicionado pode depender menos de recursos decorativos para se tornar agradável.

Enquadrar, em vez de abrir indiscriminadamente. A melhor relação com o exterior nem sempre pede o maior pano de vidro. Uma abertura bem situada pode valorizar uma árvore, proteger intimidade e dar direção ao olhar.

Dar função espacial ao verde. Um jardim pequeno pode separar usos, criar uma transição ou acompanhar um percurso. A seleção de espécies deve responder ao clima e às condições reais de manutenção, não à reprodução literal de uma paisagem distante.

Preservar o que tem valor de uso e memória. Restauração e reuso merecem avaliação antes da substituição. O critério não é conservar tudo, mas reconhecer o que pode ganhar continuidade com uma intervenção adequada.

Usar menos materiais, com mais intenção. Repetição e transições bem resolvidas ajudam a construir unidade. Isso não exige ambientes monocromáticos: exige que textura, escala e encontro entre superfícies façam sentido juntos.

Projetar a luz para cada atividade. A iluminação deve atender leitura, preparo, circulação e descanso sem ofuscamento desnecessário. Atmosfera e funcionalidade não precisam competir.

Essas escolhas se aproximam da ideia de sentir a casa para além de sua imagem: qualidade espacial não depende apenas do que se vê, mas também de como se permanece.

Hospedar também é ensinar a habitar

Os quatro projetos não oferecem uma fórmula única. Um trabalha a presença da vegetação; outro, a continuidade das casas e dos ofícios; outro, a linha construída diante da paisagem; outro, a relação entre massa mineral e vazio.

O ponto comum, nesta leitura, é a atenção ao intervalo entre edifício e lugar. Quando essa relação orienta as decisões, a hospedagem deixa de ser apenas um interior equipado diante de uma vista. Torna-se uma experiência de proporção, luz, matéria e tempo — temas que pertencem tanto aos hotéis quanto às casas.

Para continuar a leitura: A hospitalidade começa antes do quarto.

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